Como Estudar Programação (técnica de estudo + neurociência)
Antes de qualquer técnica de estudo, entender como o cérebro reage ao novo muda tudo. Um mergulho rápido em como a resistência aparece e uma técnica de três etapas que aumenta muito o aproveitamento das suas aulas de programação.
Vou começar uma série de posts sobre assuntos que são essenciais pra você enquanto programador, mas que não são necessariamente técnicos. E o primeiro deles é sobre como estudar programação. Só que em vez de só listar técnica ("faz isso, faz aquilo, método pomodoro, enfim"), quero descer um nível e te mostrar por que essas técnicas funcionam, entendendo um pouco de como a sua própria cabeça reage ao estudo.
Só um adianto: não sou psicólogo nem neurocientista, então nada aqui é uma afirmação técnica dessas áreas. Sou programador e gosto de estudar sobre o assunto. Mas entender esses dois pontos vai te ajudar a adaptar qualquer técnica de estudo pra sua situação.
O cérebro não quer seu progresso, quer sua sobrevivência
Em nível estrutural, animal mesmo, o cérebro foi feito pra manter você vivo. Ele não quer que você seja feliz, não quer que você aproveite a vida. Ele só quer se manter funcionando. Respirando já é suficiente. O resto é coisa adicional que ele não prioriza.
Pra se manter vivo, ele precisa de duas coisas. A primeira: se você não está morto agora, então o que você está fazendo agora está mantendo você vivo, então ele quer que você continue fazendo exatamente isso. Não importa se é ficar no sofá vendo série ou fazer exercício. O que importa, pro cérebro, é que aquilo já provou que não te mata, então continua.
A segunda: ele quer diminuir ao máximo as chances do futuro te prejudicar, ou seja, as chances do incerto. Quando você começa algo novo (um esporte, um estudo, um hábito), o cérebro não sabe o que aquilo vai representar lá na frente. Como ele não sabe, ele assume uma chance de 50% daquilo ser ruim, e sempre vai pelo cenário mais pessimista, porque isso é o que te mantém vivo. É por isso, inclusive, que notícia ruim é tão consumida: ela apela justamente pra esse aspecto animal do cérebro.
Então uma coisa nova, mesmo que seja ótima pra você, carrega esse "risco" de 50% na cabeça do cérebro. E isso já é suficiente pra ele resistir. Ele prefere a zona que já conhece, mesmo que racionalmente aquele novo hábito não ofereça risco nenhum. O aspecto animal não reconhece isso, e o sentimento que ele desperta em você diante do desconhecido é o medo.
Por que você trava logo no começo de estudar
Juntando os dois pontos: o cérebro quer continuar fazendo o que já faz e quer evitar risco futuro. Estudar programação é uma novidade que não oferece risco nenhum à sua vida, mas o cérebro não entende dessa forma. Por isso, quando você decide criar o hábito de estudar, você sente resistência. Aquela desanimação, a dificuldade de manter meia hora de estudo hoje e uma hora amanhã, a preguiça que aparece do nada.
Existe um período em que essa resistência é maior, e ela só some quando você tem motivação suficiente para atravessar essa fase. E motivação aqui não é euforia nem palestra motivacional. É motivo para a ação, literalmente: por que você está fazendo isso? Pra melhorar a carreira, pra mudar de profissão, pra desenvolver uma habilidade nova. Ter esse motivo claro é o que te sustenta enquanto essa força ainda está tentando te puxar de volta pro que é confortável.
O cérebro é como uma massinha de modelar
O segundo ponto que quero que você entenda antes de chegar na técnica em si: pelo menos uma parte do cérebro funciona como uma massinha de modelar. Sem entrar em como os neurônios funcionam de verdade, essa é uma forma simples de visualizar: o cérebro pode ser moldado pra pensar de formas diferentes.
Conforme o tempo passa e você continua fazendo aquela coisa nova, mesmo resistindo, chega um momento em que o cérebro se adapta. Ele percebe que aquilo não oferece o risco que ele imaginava, e a resistência diminui. O nome técnico pra isso é neuroplasticidade. O tempo que isso leva varia muito de pessoa pra pessoa, mas enquanto essa adaptação não acontece, a resistência vai continuar aparecendo. Ter ciência disso evita que você desista achando que "essa coisa é chata" quando, na verdade, é só o seu cérebro animal tentando te manter na zona de conforto, mesmo que isso signifique menos progresso.
Repetir o motivo pela ação é a forma mais simples de atravessar essa fase. Sempre que bater a preguiça de estudar, volta pra pergunta: por que eu comecei isso?
A técnica de estudo em três etapas
Entendido isso, vamos pra prática. Ao longo dos anos ensinando programação, fui repetindo essa técnica pra quem perguntava como estudar, e quem aplicou de fato teve um progresso muito mais rápido. Ela consiste em três etapas, e você pode adaptar o tempo que tiver disponível pra encaixar as três.
Primeira etapa: assista sem anotar. Se você está seguindo um curso ou lendo um material, faça essa primeira passagem só prestando atenção, de preferência em velocidade 1x ou no máximo 1.25x. Não anote nada, não tente reproduzir junto, não pause pra testar. O objetivo aqui é só entender os conceitos e acompanhar o raciocínio, sem se preocupar em fixar ainda.
Segunda etapa: reassista fazendo junto. Agora sim você revisita o mesmo conteúdo, podendo acelerar mais (2x, 3x, o quanto conseguir acompanhar o raciocínio). Dessa vez você anota, faz observações e tenta reproduzir no seu próprio código o que está sendo mostrado. Essa etapa é o meio-termo entre passivo e ativo: você ainda está acompanhando o material, mas já participando.
Terceira etapa: refaça sozinho ou adapte. Aqui é a parte totalmente ativa. Ou você tenta reproduzir o que foi feito sem assistir de novo, ou você pega o que foi construído e tenta adaptar: mudar uma parte da implementação, trocar um dado por outro, adicionar algo que não estava lá. Se estava estudando um sistema de login com e-mail e senha, por exemplo, tenta trocar pra usar nome de usuário, ou adicionar um campo novo no processo. Se não conseguir, sem problema, reassiste e tenta de novo. O nível dessa adaptação depende de onde você está: no comecinho, talvez só reproduzir igual já seja suficiente.
Por que isso funciona mesmo assistindo menos aulas
Uma coisa interessante é que quem aplica essa técnica acaba assistindo menos aulas no mesmo tempo de estudo, porque fica na mesma aula pelo menos duas vezes antes de avançar. Só que o aprendizado por aula acaba sendo muito maior do que o de quem só vai assistindo aula atrás de aula sem esse processo de revisitar e praticar.
Existem outras técnicas de estudo, mas essa é a que mais recomendo pra quem está começando ou quer melhorar o aproveitamento do tempo que tem disponível pra estudar. Aplica por uma semana e observa a diferença no quanto você realmente reteve do conteúdo, não só no quanto você "assistiu".
Esse é o primeiro de uma série de posts sobre assuntos que vão além do técnico, mas que fazem toda diferença na sua jornada como programador.
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