A Verdade Sombria Sobre Programar com IA
A IA virou o melhor parceiro de código que a gente já teve, mas ela também tem um lado perigoso. Um paralelo com o jQuery mostra como copiar e colar sem entender pode te transformar em refém de uma ferramenta, e um exemplo real de bug mostra o preço disso.
Tem coisa que só se aprende com o tempo. Documentação e tutorial ensinam a sintaxe, mas o instinto de desconfiar de um código só vem depois de você levar uns tombos. E tem um tombo específico que eu vejo muita gente prestes a levar agora, então resolvi escrever sobre isso.
O fenômeno jQuery
Se você é mais novo na programação, talvez nunca tenha ouvido falar do jQuery. Mas acredita em mim: já foi a biblioteca JavaScript mais usada do planeta. Uma revolução de verdade.
O motivo é simples. Coisas que dariam um trabalhão em JavaScript puro, tipo selecionar um elemento pela classe e adicionar outra classe nele, o jQuery resolvia numa linha só. Uma linha, pronto, feito. No JavaScript da época isso exigia bem mais código e mais atenção.
O problema não era a biblioteca em si. O problema era o efeito colateral que ela criou. Gente carregando o jQuery inteiro no projeto só para colocar um clique num botão, uma coisa que duas ou três linhas de JavaScript puro resolveriam. Isso deixava o site mais pesado à toa, mas o pior mesmo era o efeito na cabeça do programador: uma leva inteira de gente aprendeu jQuery e nunca aprendeu JavaScript de verdade. Sabiam usar a ferramenta, mas não sabiam a linguagem por trás dela.
O jQuery de hoje se chama IA
Faz esse paralelo comigo: hoje a gente tem ChatGPT, Claude e companhia fazendo, guardadas as proporções, o mesmo movimento que o jQuery fez. E olha, isso não é ruim por si só. Longe disso.
Usar IA como assistente é ótimo. Deu erro, você joga pra ela e ela explica melhor que qualquer fórum. Precisa de uma direção, ela aponta um caminho. Precisa gerar um trecho de código, ela gera, e às vezes até erra, mas se você entende o suficiente, consegue pegar o que presta e descartar o que não presta. Isso é usar a IA como ela deveria ser usada: um auxiliador.
O problema começa quando você para de auxiliar e passa a depender. Copia o código, cola no projeto, funcionou, "vida que segue". Só que você não resolveu nada. Você só transportou uma solução de um lugar pro outro sem entender por que ela funciona. Virou, sem perceber, um escravo da IA. Alguém que não exerce a função principal de um programador, que é resolver problema, e sim a função de colar o que outro resolveu.
Já revisei projeto que dava pra sentir o cheiro de copia e cola de IA a quilômetros de distância. Um trecho de código com um padrão, o trecho seguinte com outro padrão completamente diferente, como se tivessem sido escritos por duas pessoas diferentes. E quando pedia pra explicar aquele código, a pessoa travava.
Isso é sério porque o dano não aparece na hora. Aparece depois, quando o contexto muda um pouco e o problema não é mais exatamente igual ao que a IA resolveu da última vez. Aí você trava, porque nunca aprendeu a resolver, só aprendeu a copiar.
Um bug que só um erro de quem entende pega
Deixa eu te dar um exemplo bem concreto, porque teoria é fácil, na prática é que a gente vê o estrago.
Eu precisava de uma função em JavaScript pra formatar número de telefone. A ideia era simples: receber o número em qualquer formato, tirar tudo que não fosse dígito, e garantir que o resultado final tivesse o DDI (código do país). Pedi pro ChatGPT gerar isso, e falei explicitamente: assuma DDI 55 (Brasil) quando ele não vier no número.
Ele fez um trabalho bom em boa parte da função. Limpou os caracteres especiais, montou regex pra identificar se o número vinha só com o telefone, com DDD, ou com DDI e DDD completo, testava contra cada padrão e completava o DDI quando faltava. Até aqui, ótimo.
Só que reparando com calma, percebi um detalhe que eu não tinha pedido em nenhum momento: quando o número não vinha com DDD, a função inventava um DDD "11" padrão. Eu nunca falei isso. Pedi pra assumir um DDI padrão quando ausente, porque faz sentido você assumir que a pessoa é do Brasil se não informou o país. Mas assumir um DDD é outra história completamente diferente, porque não tem como saber de qual estado é o número. Nesse caso, o certo era simplesmente retornar que o número era inválido.
Se eu não entendesse programação o suficiente pra pescar esse detalhe, teria aceitado a função inteira, colado no projeto, e ela estaria em produção se comportando de um jeito que eu nunca pedi e que provavelmente ia gerar dado errado lá na frente. Um bug silencioso, desses que só aparecem quando já causaram estrago.
O jeito certo de usar
Não estou aqui pra condenar o uso de IA na programação. Longe disso, eu uso todo dia. O ponto é o como.
No caso do telefone, por exemplo, eu aproveitei boa parte do que o ChatGPT gerou: a limpeza dos caracteres, a lógica das regex, tudo isso estava bom. O que eu mudei foram as verificações que geravam aquele comportamento que eu não tinha pedido. Ele me ajudou no processo, foi o assistente de pedreiro. Mas quem fez o trabalho de verdade, quem revisou, entendeu e corrigiu, fui eu.
É por isso que também bate muito na tecla de aprender a linguagem de base antes de qualquer coisa. Não pra rejeitar ferramenta nenhuma, o jQuery também tinha seus méritos, era ótimo pra requisições numa época em que não existia fetch e você precisava de dezenas de linhas com XMLHttpRequest pra fazer o que o jQuery fazia em três. O problema nunca foi a ferramenta. O problema é usar a ferramenta no lugar de aprender, em vez de usar a ferramenta além do que você já sabe.
A dica de ouro, então, é essa: faz uma autoanálise sincera. Você tá usando a IA como auxiliadora, revisando o que ela te entrega, entendendo cada linha antes de aceitar? Ou você virou um copiador profissional de respostas, alguém que resolve rápido no papel mas não teria a menor ideia de como resolver aquilo sozinho se a internet caísse amanhã?
Programador de verdade não é quem gera código mais rápido. É quem entende o que aquele código faz, sabe quando confiar e quando desconfiar. A IA é uma ferramenta poderosa demais pra virar sua muleta. Use ela pra ir mais longe, não pra parar de andar com as próprias pernas.
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